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Haya
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Autor Mensagem
Luis Camisão



Registrado: Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2003
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MensagemEnviada: Ter Jun 01, 2010 5:14 pm    Assunto: Haya Responder com Citação

Sempre foi um desejo meu visitar Israel. Infelizmente devido a situações na minha vida pessoal e profissional, a oportunidade veio e teve o condão de transformar o infelizmente num felizmente superlativo.
Quando parti, sinceramente não sabia ao que ia, apenas que tinha que ir pois algo chamava por mim. Sabia de antemão os riscos que esta busca de paz interior e sentido da vida continham, pois não ia propriamente para um lugar paradisíaco e essa sensação começou a bordo do avião da El Al (Linhas Aéreas de Israel) pois o mesmo, no percurso desde o Táxi Way ao Run Way foi sempre escoltado por duas viaturas descaracterizadas.
Durante a viagem travei conhecimento com um senhor chamado Lechin Vaduch que ia acompanhado da mulher em peregrinação a Jerusalém. Fomos em amena cavaqueira durante o voo e fiquei surpreendido por falar com um estranho sobre o que me levava a Israel…seriam já efeitos místicos da Terra Santa?
Perguntou-me o que ia fazer e onde ficava hospedado. Quando lhe respondi que nada tinha planeado e que pensava ficar uns dias em Telavive e mais uns dias em Jerusalém, sacou de um cartão escreveu algo na parte detrás e disse-me que indicava um sítio onde, segundo ele, seria bem tratado. Olhei para os dizeres no cartão…estavam em hebraico e perguntei-lhe o que lá dizia. Ele sorriu e disse para não me preocupar pois tudo faz parte da descoberta.
Aterrámos no aeroporto de Ben Gurion já era noite. Depois das formalidades alfandegárias e de ter cambiado euros em “Shekels” despedi-me do simpático casal e fui à luta por um lugar num táxi colectivo ou Monit Sherut. Mostrei ao motorista o cartão que Lechin me tinha dado, ele acenou com a cabeça disse-me que eram cinquenta Shekel, qualquer coisa como dez euros e fez-me sinal para entrar.
A sensação de entrarmos num Monit Sherut é o de estarmos numa aldeia, ou num lugar onde todos se conhecem, quando antes estávamos numa grande cidade onde éramos todos desconhecidos. Antes de lá estarmos ninguém fala com ninguém, mas assim entramos toda gente começa a conversar nessa língua tão gutural que é o hebraico. O facto de eu ser estrangeiro e de nada perceber de hebraico pareceu não os afectar, antes pelo contrário. Um soldado ofereceu-me um pouco de Pita e Falafel enquanto um homem parecido com o René da série Alô Alô me oferecia um cigarro.
Entrementes o motorista disse-me que tinha chegado ao meu destino e que bastava percorrer cerca de cem metros para ir ter ao sítio onde ia, esperava eu, pernoitar.

Cenas do próximo episódio:

- Surpresa à chegada
- Haya e uns dias em Telavive
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Spice Girl



Registrado: Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006
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MensagemEnviada: Ter Jun 01, 2010 10:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Estou a gostar...

e cheia de curiosidade para ler os próximos capítulos! Very Happy
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Luis Camisão



Registrado: Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2003
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Localização: Lisboa-Baixa

MensagemEnviada: Qua Jun 02, 2010 3:33 pm    Assunto: Responder com Citação

Ao contrário do que esperava e da imagem que tinha de Telavive a rua era curta e estreita, parecida com a nossa Rua dos Douradores, mal iluminada e com casas bastante antigas. Perguntei ao motorista se tinha a certeza que era ali e ele, usando gestos bastante enérgicos confirmou. Também o soldado e o “René” confirmaram, tendo o primeiro avisado que era uma zona não aconselhável a turistas.
Confesso que senti receio, era noite e de noite todos os gatos são pardos. Relancei de novo o olhar sobre a rua e descortinei a meio da rua uma casa mais iluminada. Seria ali? Bom, pensei, como a sorte favorece os audazes e como eu nada tinha a perder a não ser a vida, então, porque não arriscar?
Despedi-me dos meus companheiros de viagem e fui à aventura. Ainda descobri uma placa toponímica, em hebraico, que comparei com os caracteres do cartão, pelo menos dois dos caracteres eram iguais, do mal, o menos.
Caminhando sem pressa pela rua mal cheirosa (parecendo uma mistura de xixi de gato e de comida vomitada) olhando para um lado e para o outro (já imaginava uma quadrilha imensa de à minha espera) lá me dirigi à tal casa que vim a confirmar, ser a única casa iluminada.
A iluminação provinha de um néon. Voltei ao cartão e comparei os dizeres que, felizmente, conferiam ou assim me pareceram. A casa, de dois pisos com varandas no último andar dava mostras de precisar de reparações urgentes ao melhor estilo de Alfama de há alguns anos. Junto à porta, fechada e com um postigo a fazer lembrar as portas de uma cela, um “H” em azul já esbatido fazia-se ver. Seria aqui? Bom, já que vim até aqui nada tenho a perder e lá toquei.
Uma campainha estridente fez-se ouvir. Toquei mais uma vez e uma voz fez-se ouvir. O postigo abriu-se e dois olhos negros rodeados de rugas fixaram-me e perguntou-me algo em hebraico. Entreguei-lhe o cartão e respondi:
- Não falo hebraico mas apenas inglês e um senhor chamado Lechin Vaduch deu-me esse cartão e disse-me que aqui iria encontrar dormida, estou no sítio certo?
Sem uma resposta imediata, abriu-me a porta e deparei-me com um senhor de estatura média com cerca de sessenta anos, cabelo branco parcialmente tapado pelo kipá, face enrugada, cigarro ao canto da boca, todo vestido de ganga, com um colete preto e com um pormenor bastante inquietante…uma pistola à cintura ao melhor estilo do oeste selvagem.
- Deves ser o Luís (leia-se Louis) o Lech disse-me que devias vir. Entra, entra…
Entrei naquilo que me parecia uma espécie de recepção, mal iluminada, paredes em tabique a precisar de pintura, estando numa delas um retrato de David Ben Gurion, decorada com dois sofás com ar de reforma, uma mesa com igual aspecto com algumas revistas, um balcão onde atrás, numa prateleira se mostravam algumas chaves, e uma escada de madeira que dava acesso aos pisos superiores.
- O Lech disse-me que te tinha conhecido no avião, que tinha simpatizado contigo e que achava que precisavas de um sítio para ficares. Aqui não tens luxos mas tens um sítio calmo para ficares.
Sítio calmo? Olhei novamente para a pistola…ele seguiu o meu olhar com um sorriso:
- A esta hora mais vale prevenir e espero não te ter assustado. Estendeu-me a mão – Chamo-me Yosh Vaduch e sou irmão do Lech. Mas deves estar cansado – Tirou uma chave da prateleira - Anda, vou-te mostrar onde vais ficar.
Ainda mal refeito da surpresa, acompanhei Yosh enquanto ele subia as escadas que rangiam a cada passo que dávamos. Abriu a porta do meu quarto, o número dois - É aqui que vais ficar espero que gostes e tem uma boa noite. Ia-se embora quando o questionei:
- Yosh, o seu irmão foi muito simpático e o senhor também está a ser, mas quanto é que me vai custar a diária?
- Nem se voltou – A casa de banho é ao fundo do corredor, o pequeno-almoço é servido no segundo piso a partir das sete, dorme bem, espero que gostes do quarto e bem-vindo a Jaffa!
O quarto era do mais espartano que eu podia encontrar. Quatro paredes desnudas, uma cama de corpo e meio, uma mesa-de-cabeceira tendo em cima um candeeiro, um roupeiro pequeno e um tapete já gasto completavam o recheio. O cheiro a mofo era predominante pelo que abri a janela, mas a opção não ser verificou ser a mais válida pois dava para a rua e o cheiro dessa rua para mim chegava. Depois de me refrescar na casa de banho comunitária senti uma enorme vontade de ir para o vale dos lençóis e meditar sobre este meu primeiro dia em Israel e porque razão tinha ido parar a Jaffa e não a Telavive. Não tive tempo…os braços de Morfeu acolheram-me e caí num sono profundo.
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José Tomáz Mello Breyner



Registrado: Quarta-Feira, 27 de Novembro de 2002
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Localização: Estoril

MensagemEnviada: Qua Jun 02, 2010 8:08 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luis

Depois de nada saber de ti desde a morte da tua Mãe, estou a saber as novidades agora e a seguir atentamente esta história. Não demores muito a continuar pois estou curioso.

Abraço amigo

Zé Tomaz
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Spice Girl



Registrado: Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006
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MensagemEnviada: Qua Jun 02, 2010 9:43 pm    Assunto: Responder com Citação

Eu também estou muito curiosa... Very Happy
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Paulo Rodrigues



Registrado: Terça-Feira, 18 de Janeiro de 2005
Mensagens: 2585

MensagemEnviada: Qua Jun 02, 2010 11:39 pm    Assunto: Responder com Citação

Interessante o relato, também estou curioso.... Think

Já pensaste em escrever um livro? Idea

Abraço
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Abílio Neto



Registrado: Quinta-Feira, 1 de Setembro de 2005
Mensagens: 3677

MensagemEnviada: Qui Jun 03, 2010 12:09 pm    Assunto: Responder com Citação

Luís,

Porra!, isto tem de dar em livro. Que coisa...! (Obrigado).
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Abraços,

Abílio Neto
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Luis Camisão



Registrado: Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2003
Mensagens: 1771
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MensagemEnviada: Sex Jun 04, 2010 3:26 pm    Assunto: Responder com Citação

Nem dei pela noite passar. Acordei com um som, estridente mas ao mesmo tempo melódico, que percebi ser a chamada aos fiéis muçulmanos para a oração e pensei que, com toda a certeza, devia de haver uma mesquita próximo. A claridade do dia começava a invadir o quarto e um burburinho fazia-se ouvir na rua pelo que me dirigi à janela. Do deserto mal iluminado da noite nada restava.
Pessoas oravam em plena rua. Outras, indiferentes ou não à oração, abriam os estabelecimentos. Reparei que uma carroça, carregada daquilo que me pareceu ser trigo e puxada por uma mula, estava em andamento derrubando algumas bancas já colocadas, enquanto o dono se encontrava mergulhado nas suas preces, fazendo com que uma pequena algazarra se gerasse. Um cheiro novo associou-se ao antigo. O vento trazia um ar marítimo, com cheiro a sal e algas fazendo uma mescla de odores que me fizeram, em parte, lembrar o Rio Tejo em hora de maré baixa.
Um novo ruído fez-se ouvir, este bem mais familiar. Era simplesmente o meu estômago a dar sinais de precisar de alimento. Pela primeira vez olhei para o relógio…eram cinco e quarenta da madrugada! Pequeno-almoço nem pensar por enquanto. Lembrei-me de que tinha um saco de amendoins na mochila e foi isso que enganou por algum tempo a fome. Pelo menos deu para observar com mais atenção a rua e as pessoas.
As bancas a que fiz referência mostravam alguns frutos secos, fruta e roupa. Um novo odor, este a pita acabada de fazer, emanava de uma padaria próxima cuja fila já tinha proporções razoáveis e com muita discussão à mistura. Pessoas envergando trajes típicos árabes, outras mais ocidentalizadas, tudo fazia parte desta palete de cores, sons e odores, que caracterizavam a minha primeira madrugada em Israel e nem dois carros da polícia israelita que passaram lentamente pela rua fizeram com que tal imagem se alterasse. No fim de contas, faziam também eles parte do quadro.
Hora de explorar e tentar descobrir onde ia tomar o pequeno-almoço. Desci até à recepção, vazia, reparei que a porta de entrada ainda estava fechada. Do lado direito, ao fundo das escadas, existia uma sala com mesas. Entrei, um barulho de tachos e um cheiro agradável vinham de uma outra divisão. Uma voz fez-se ouvir:
- Sente-se, o pequeno-almoço está pronto!
Quem era tinha ouvidos de tísico, pois praticamente não tinha feito barulho nenhum ao entrar. Mas assim fiz, sentei-me na única mesa que tinha uma toalha, de linho branco, e aguardei que a pessoa se fizesse mostrar.
Não demorou muito. Um tabuleiro carregado com sumo de laranja, queijos de várias qualidades, pão fresco, azeitonas, manteiga e uma espécie de salada de tomate, pimento, pepino e cebola fez a sua aparição. Mas o que me chamou a atenção não foi o tabuleiro em si mas quem o transportava. Morena, idade a rondar os quarenta, cabelo preto liso até ao meio das costas, um sorriso que pode deixar qualquer não crente rendido, estatura mediana num corpo franzino. Pousou o tabuleiro na mesa.
- Shalom, Luís, o que vai desejar para acompanhar, café ou chá?
Já não me surpreendi por também ela saber o meu nome, julgo que Jaffa inteira já devia estar ao corrente da minha chegada!
- Bom dia - pode ser café por favor.
- Vou já trazer, belo dia que está não acha? – Afastou-se em direcção à cozinha. Voltou logo de seguida com um bule e serviu-me, tacteando com uma das mãos a chávena e com a outra despejando o bule que despejou na chávena um café com um aroma intenso.
A bela morena sentou-se à minha frente. Reparei numa pequena cicatriz na testa mas algo me chamou mais a atenção…a cor dos seus olhos, negros, não reflectia o sorriso lindo dos seus lábios. Eram olhos sem expressão, mortos para a vida.
- Dormiu bem? Não estranhou a cama? Não se admire por eu saber o seu nome, pois o meu tio Yosh disse-me ontem que tinha chegado e além disso é o único hóspede.
- Tio Yosh…aquele senhor de ontem à noite é seu tio? E também é sobrinha do Sr. Lechin?
Deu uma gargalhada bem sonora – Não Luís, o Lech é meu pai! Chamo-me Haya, Haya Vaduch!
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Spice Girl



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MensagemEnviada: Sex Jun 04, 2010 11:04 pm    Assunto: Responder com Citação

Pelo título do tópico depreendo que a Haya, que acabámos de conhecer, vai ter um papel central na narrativa. Estou certa?

Luís quantos dias lá esteve? Só para fazer uma estimativa do tempo de suspense a que nos vai sujeitar... Laughing Laughing
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Luis Camisão



Registrado: Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2003
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MensagemEnviada: Sáb Jun 05, 2010 6:26 pm    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:
Pelo título do tópico depreendo que a Haya, que acabámos de conhecer, vai ter um papel central na narrativa. Estou certa?


Então, então, isso seria estragar tudo! Cool

Spice Girl escreveu:
Luís quantos dias lá esteve? Só para fazer uma estimativa do tempo de suspense a que nos vai sujeitar... Laughing Laughing


Estive alguns... Laughing Laughing estou a escrever baseado nos meus apontamentos e um pouco de memória, mas não vai ser nenhuma novela da TVI...peço apenas um pouco de paciência Wink

E como há muito tempo não escrevia está-me a dar um gozo enorme! Very Happy
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Spice Girl



Registrado: Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006
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MensagemEnviada: Sáb Jun 05, 2010 6:43 pm    Assunto: Responder com Citação

Eu também estou a gostar muito de ler.

Aguardo o próximo capítulo.
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Luis Camisão



Registrado: Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2003
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MensagemEnviada: Seg Jun 07, 2010 4:35 pm    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:
Aguardo o próximo capítulo.


Fiquei uns momentos em silêncio, fixando-a, enquanto mexia distraidamente o açúcar com o café. Em que estranho mundo novo estaria eu a mergulhar?
- Haya, mais uma vez eu agradeço a vossa hospitalidade. Mas esclareça-me uma coisa, estou em Jaffa ou em Telavive?
- Jaffa pertence a Telavive desde há muitos anos. Aliás, o nome correcto é Telavive-Yafo.
- Mas o seu tio, ontem à noite, deu-lhe o nome de Jaffa.
- Oh, o meu tio é quase tão antigo como a cidade – sorriu – mas é mesmo como eu digo. Aproveito para te pedir o passaporte. Temos que te registar convenientemente pois daqui a pouco passa a polícia e eles têm que ter os teus dados.
Entreguei-lhe o passaporte que ela guardou num bolso da túnica branca que vestia.
- Luís que idade tem?
- Vou fazer quarenta e cinco daqui a uns tempos.
- Eu tenho quarenta e dois e como somos quase da mesma geração importa-se que adoptemos um comportamento menos formal. Eu deixo de fazer cerimónia e o Luís deixa de estar pouco à vontade, ok?
- Por mim tudo bem, o facto de estar pouco à vontade prende-se com o estar num país desconhecido, num hotel desconhecido e a falar com uma pessoa que ainda não conheço. Mas já que foi tão aberta e frontal vou fazer o meu melhor para ultrapassar isso.
- Assim é que se fala! E então o que te trouxe a Israel? Férias, trabalho, conhecer algum jovem ou alguma jovem israelita? – Sorriso maroto quando desta última frase.
- Sabes, não estou habituado a comer salada logo de manhã, mas o pão e o queijo estão óptimos e o sumo de laranja é uma especialidade. – Só aí reparei que tinha colocado o tomate no café e que estava a comer uma fatia de pão com cebola e queijo. – Mas respondendo, dispenso o jovem israelita. Quanto ao que me traz, receio que seja algo mais sério do que férias e mais atraente que o trabalho.
Fomos interrompidos pelo toque da campainha. Haya levantou-se, encaminhou-se para a recepção e eu voltei a atacar o que faltava do pequeno-almoço. A salada, apesar de não estar habituado logo de manhã a comer vegetais, era óptima e bem temperada com limão e azeite e achei que depois deste opíparo dejejum não ia ter mais fome durante todo o dia! Entretanto ela voltou e pude admirar a sua desenvoltura ao caminhar sem qualquer auxílio.
- Era a polícia, está tudo tratado e aqui tens o teu passaporte. – Retirou-o do bolso da túnica e entregou-mo. - Então vens de Portugal? Infelizmente, é o único país do sul da Europa que eu não conheço.
- Tens que lá ir um dia. – Respondi enquanto guardava o passaporte no bolso da camisa. – É um bom sítio para visitar, com paisagens muito bonitas e pessoas acolhedoras.
- Agora pareces um anúncio para férias! Mas se é assim tão perfeito o que te fez vir para Israel? Já sei que não é turismo nem trabalho, mas o que faz um “goy” que adora o seu país fugir para outro perfeitamente desconhecido?
- Perdão, o que é um “goy”? – Esta pergunta fez-me pensar na resposta que daria a tão directa pergunta.
- Ah, desculpa, é o nome que nós, os judeus, chamamos aqueles que não partilham a nossa religião. Também te posso chamar gentio mas assim gosto mais.
- Não, “goy” está óptimo. – Puxei de um cigarro. – Posso fumar? – Ela acenou em concordância. Acendi-o e dei duas baforadas. – Haya, Saí de Portugal para tentar esquecer um pesadelo. Perdi num curto espaço de um mês, tanto a minha mãe, vítima de uma trombose e mais tarde de um enfarte, como o meu trabalho, fruto, tanto do tempo que lhe tinha que dispensar à minha mãe, como de alguma perturbação psicológica de que ainda estou a tentar recuperar. Já não conseguia respirar em Lisboa e julgo que nem em qualquer lugar do meu país eu me sentiria bem. Sempre quis vir até cá e como tal, aproveitei e vim um pouco à aventura.
- Não Luís, tu não precisas de aventuras! – Procurou o meu braço onde pousou a mão. - O meu pai tinha razão quando disse que viu que tu eras um rapaz sofrido e a precisar de algo. Por isso ele te deu o cartão que te encaminhou até aqui. Eu também reparei que o teu tom de voz é triste, por vezes amargurado e outras vezes revoltado. Tens necessidade de te reencontrares e não de uma qualquer aventura. Tal como tu, não sei se este será o lugar que procuras. Mas uma vez que nos escolheste, possivelmente, Deus deve ter tido um papel importante na tua escolha e nós vamos cá estar para te ajudar.
Levantou-se, debruçou-se sobre a mesa, fitou-me como se conseguisse olhar bem fundo nos meus olhos, tacteou a minha face, passou os dedos pelo meu cabelo e despenteou-me todo!
- Mexe-te meu “goy” português! O dia está lindo, Yafo é bonita e eu vou ser a tua guia nos próximos dias!
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Spice Girl



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MensagemEnviada: Seg Jun 07, 2010 10:36 pm    Assunto: Responder com Citação

Ainda só vamos no pequeno almoço... Cada vez mais interessante... Very Happy

Mais! Please!

PS
Luís, da última vez que estivémos juntos foi logo a seguir a te ter acontecido tudo o que descreveste. Conversámos um bom bocado. Também com o Carlos Silva Barbosa.
Não foi há muito, mas tanta coisa aconteceu... Fico mesmo contente de te ver agora com uma nova alma. Very Happy Very Happy Very Happy Very Happy Very Happy
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Abílio Neto



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MensagemEnviada: Ter Jun 08, 2010 9:21 am    Assunto: Responder com Citação

Luís,

Vamos, continua... (o que estás a escrever tem mais alma e vida, pudera!, que todos os romances que me lembro e ter lido este ano... e já foram alguns.)
_________________
Abraços,

Abílio Neto
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Paulo Rodrigues



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MensagemEnviada: Ter Jun 08, 2010 1:19 pm    Assunto: Responder com Citação

Abílio Neto escreveu:
Luís,

Vamos, continua... (o que estás a escrever tem mais alma e vida, pudera!, que todos os romances que me lembro e ter lido este ano... e já foram alguns.)




Eu penso o mesmo.............
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